Leo Noronha, Ronaldo Fraga, Márcio Santos, O Velho Chico, Todos nós

via Léo Noronha em http://www.otempo.com.br/otempo/colunas/?IdColunaEdicao=13551

Léo Noronha

Publicado no Jornal OTEMPO em 26/11/2010
Ronaldo Fraga, Velho Chico

O prato do dia é alimento para a alma. A alegria de ver Ronaldo Fraga mergulhado nas águas do Velho Chico abre o apetite e convida a uma moqueca ribeirinha. Mas hoje não quero a simples gostosura das moquecas do Alguidares ou do Baianera. Quero matar a fome com realeza, comer ao acordeão, vendo mocassins desenharem o xote no chão encerado do Benjamim Guimarães. De sobremesa, quero melancia sangrando no branco da camisa, enquanto o barco singra o tecido, rumo a Petrolina. Não se pode navegar tão longe assim, Chico adentro? Então quero comer surubim pescado em Pirapora. Só que nem no Egnaldo há mais o surubim de Pirapora. Dizem os pescadores que ele morreu pelas mãos da Companhia Mineira de Metais. Mas pescador é bicho tinhoso, né? Conta histórias sem pé nem cabeça.

Pois quero é comer essa moqueca às margens do filhote de rio das Velhas lavadeiras. Em restaurante de chão batido, varridinho com asseio, sombreado pelas jabuticabeiras de Sabará, esteiras e redes no entremeio, que a dona prendeu no arvoredo, crente na promessa governamental. Qual? A de que o Velhas ficaria cheiroso, piscoso e potável, pertinho de nós, belo-horizontinos, também filhos do São Francisco, já em 2010! Mas 2010 quase não há mais. E agora a miragem é para 2014, pois a política está sempre a prefigurar miragens. Isso se a Copasa e os prefeitos da Grande BH estiverem fazendo sua parte, enquanto você lê este artigo. Depois dizem que devaneio é coisa de artista…

Ronaldo Fraga é amigo perene, meu, do rio, da vida que corre em suas muitas cores, translúcidas, barrentas, misturadas pela rabanada do surubim gigante. A torrente de sua criação fertiliza bandas de lá e de cá da moda, faz peixinhos saltarem dos olhos das crianças em que nos transformamos todos, inspirando outros criadores a se comprometerem com esse rio de tecido esgarçado, mas sempre digno. Puro linho com que se cobrem os ribeirinhos de pés descalços de São Romão e Penedo.

O estilista contador de histórias e amante da cultura de seu povo está justamente preocupado. Preocupa-se com a morte do rio no coração da meninada. Teme que os filhos e netos das gerações que se fizeram com o Velho Chico lhe deem as costas, talvez pela vergonha de vê-lo agonizando sem lamúria. Ronaldo Fraga sopra borboletas coloridas nos olhos d’água. Que sua exposição sobre a gente, as coisas, as belezuras do São Francisco percorra o país e tenha força de tromba d’água nas cabeceiras do rio.

Como crítico gastronômico e educador para a cidadania, alegro-me em reconhecer nossa irmandade à montante e à jusante, na eternidade desse curso de alimento e vida, no estuário desse patrimônio fabuloso de histórias, lendas, ícones, paisagens, riquezas naturais e culturais.

Aqui em O TEMPO e na Assembleia Legislativa de Minas Gerais falo e penso em como ajudar nessa luta, repercutindo-a. A Assembleia teve sua legitimidade renovada nas eleições de outubro. É uma engrenagem pesada, mas poderosa. Espero que alguns dos parlamentares, quem sabe os novos, ou aqueles que representem regiões do Estado cortadas pelo Velho Chico, vejam a exposição de Ronaldo, no Palácio das Artes, até o dia 28 deste mês. Tomara que a visita os inspire a demandar junto à Mesa Diretora e à Escola do Legislativo um projeto pedagógico para o Vale do São Francisco que culmine com algumas semanas de périplo pelas cidades ribeirinhas, para discutir temas da política, meio ambiente, cultura e história locais, motivando a gente ribeirinha a cuidar das águas e a apostar no futuro, nas muitas vocações econômicas que o rio generoso oferece. Em nossa equipe, entre outros, figura o historiador, doutor pela USP, Márcio Roberto Alves do Santos, um dos maiores especialistas brasileiros no assunto. Enfim, importa fazer coro ao belíssimo trabalho de Ronaldo Fraga, onde quer que isso seja possível. Ao leitor, prometo um cruzeiro gastronômico pela região, caso se viabilize minha presença por lá durante temporada mais longa. Não foram poucas vezes, aliás, em que falei da culinária ribeirinha nesta coluna.

Ingredientes
– 4 pitus (água doce)
– coroa de frade cortada metade em tiras e a outra em cubos
– 1 copo de champagne
– 2 dentes de alho socado
– azeite
– 3 conchas de caldo de peixe
– sal e pimenta à gosto
– 1 colher (sopa) de manteiga de garrafa
– 1 copo de leite de coco
– farinha d água
– caldo de peixe

Modo de Preparo
Aqueça o azeite, frite o alho e coloque os pitus. A seguir, acrescente o caldo de peixe, a champagne, e a manteiga de garrafa. Quando os pitus estiverem cozidos separe eles do caldo, e retorne a panela ao fogo. Prepare o pirão, com a farinha; com esse caldo. À parte, cozinhe a coroa de frade no caldo de peixe, corrija o sal e adicione 1 copo de leite de coco e pimenta à gosto. Sirva o prato com os pitus, a coroa de frade cozidas e o pirão.

Hélvio

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