Jornalista fala sobre inclusão e pesquisa científica ao Minas faz Ciência

Compartilho com vocês a nossa entrevista sobre inclusão na pesquisa científica concedida ao Blog Minas faz Ciência da Fapemig. Críticas, sugestões e comentários são bem vindos!

23JUL

Em maio deste ano, o blog Bússola, do Instituto Ciência Hoje, publicou notícia sobre um projeto inovador desenvolvido pela Universidade Federal do Espírito Santo(Ufes), com a colaboração do Instituto Nacional de Tecnologia (INT): réplicas aumentadas de células em três dimensões. É Ciência para cego sentir:

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O objetivo é difundir o estudo científico entre estudantes cegos ou com baixa visão, de maneira que eles consigam, por meio do tato, conhecer o formato das células. Para confeccionar o material, os pesquisadores geram, no Laboratório de Ultraestrutura Celular da Ufes, modelos digitais a partir de imagens reais. Esses modelos são obtidos com técnicas de microscopia eletrônica de transmissão – essa tecnologia possibilita que a estrutura celular seja reproduzida de forma proporcional à verdadeira.

O texto no blog Bússola destaca:

Estudar ciência no Brasil nunca foi fácil. A maioria das escolas não dispõe de material adequado para cativar os alunos. No caso dos estudantes com necessidades especiais, a precariedade de equipamentos didáticos de apoio costuma ser ainda maior.

Embora muitas universidades no Brasil tenham Núcleos de Educação Inclusiva, responsáveis pela adequação e adaptação de estruturas de acordo com as necessidades de cada indivíduo, as iniciativas são, na maioria das vezes, isoladas, restritas ao espaço específico de cada instituição e voltadas para atender as necessidades individuais de cada estudante.

A proposta da Ufes em parceria com o INT é voltada para um público mais amplo, mas chamou nossa atenção para as questões relacionadas à inclusão e acessibilidade na relação entre ciência e pessoas com deficiência.

Para tratar deste assunto, conversamos com a pesquisadora Sônia Pessoa, doutoranda em Estudos Linguísticos (Fale/Poslin) na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com estágio em Paris 12 (Paris Est-Créteil), Paris/França. Ela é palestrante sobre Diversidade e Inclusão, Idealizadora do blogwww.tudobemserdiferente.com e pesquisa o discurso da diversidade nas redes sociais digitais.

Confira a entrevista:

MINAS FAZ CIÊNCIA: Qual a importância de ações como as réplicas aumentadas de células e atividades dos Núcleos de Educação Inclusiva para a inclusão das pessoas com deficiência, considerando a abrangência e os resultados que podem ser obtidos?

SÔNIA PESSOA: As duas ações são importantes, na medida em que buscam atender as especificidades dos estudantes e, ao mesmo tempo, a comunidade universitária como um todo. Nós entendemos que é chegada a hora de haver um diálogo mais intenso entre os diversos núcleos, especialmente de universidades públicas mas também das privadas, com o objetivo de trocar informações e compartilhar experiências. Muitas vezes projetos interessantes que podem ser disponibilizados em redes por várias instituições ficam restritos a um universo pequeno. Por vezes tem-se um grande número de iniciativas isoladas quando poderíamos ter um conjunto eficaz que busque o indivíduo e o considere em sociedade com a participação da mesma. Sem a participação do indivíduo e da comunidade as ações muitas vezes correm o risco de se esgotarem em si mesmas.

MFC: Sua pesquisa no doutorado trata do discurso da deficiência nas redes sociais digitais. Como essas redes podem contribuir para ampliar a inclusão dos deficientes e a formação da sociedade para lidar com o tema?

SP: As redes sociais digitais são fundamentais para viabilizar o que eu chamo deestética contemporânea do discurso da diferença, ou seja, um conjunto de elementos usados tanto pelas próprias pessoas com deficiência quanto por outros interessados para desmistificar a deficiência. Isso ocorre quando uma pessoa com deficiência publica, de maneira voluntária e amadora, fotos e textos sobre atividades cotidianas realizadas por ela. Pode parecer algo corriqueiro ou até banal mas contribui significativamente para mostrar, na minha opinião, a naturalização da deficiência como diferença e não como doença. Além disso temos páginas profissionais em redes sociais digitais que se ocupam também de levantar o debate sobre a temática. São inúmeras as possibilidades para que a pessoa com deficiência, a partir do seu próprio discurso, desperte em outras pessoas o interesse por uma sociedade mais acolhedora e inclusiva, afinal, esse é um debate que inclui todos nós, ou pelo menos, deveria incluir.

MFC: No meio científico internacional, temos exemplos de grandes pesquisadores, como Stephen Hawking, que superaram suas deficiências, continuaram desenvolvendo suas investigações e publicando estudos consagrados, mesmo com todas as limitações físicas e de mobilidade. O que falta, principalmente no Brasil, para que mais pessoas com deficiência possam alcançar posições de destaque como pesquisadores? Quais os principais desafios para este público e o que podemos fazer para contribuir neste processo, tanto como indivíduos, quanto como representantes de instituições de ensino e pesquisa?

 SP: Essa é uma questão que precisa ser trabalhada a partir da infância –quanto mais crianças com deficiência tiverem acesso a uma educação de qualidade e que atende as suas especificidades mais teremos jovens com deficiência nas universidades e mais pesquisadores. Já demos grandes passos no Brasil no que diz respeito à educação inclusiva tanto do ponto de vista da legislação quanto das barreiras atitudinais. Mas ainda temos crianças com deficiência fora da escola convencional, temos crianças que precisam de auxiliares de vida escolar e não os têm, temos crianças com matrículas negadas em escolas privadas. Todo esse cenário traz como reflexo o ainda bem pequeno número de pessoas com deficiência nas universidades e, consequentemente, nas pesquisas. Seria leviano pensar em uma lista do que poderíamos fazer. Mas é fundamental que pensemos em conjunto, permitindo a participação das pessoas com deficiência e dos grupos que as representam. Processos como esses só avançam com participação efetiva da comunidade interessada. Talvez esteja aí um grande gargalo nas universidades brasileiras… Talvez a construção coletiva de propostas consiga resultados mais efetivos. E talvez um passo importante seja considerar o pesquisador com deficiência como um pesquisador e não como um caso de superação ou de heroísmo. Ele está apto como qualquer um de nós a exercer o seu trabalho. Para tal, talvez precisa de adaptações de tecnologia, de mobiliário, etc, mas não da sua capacidade profissional.

Ficou interessado? Participe da discussão e leia também o conteúdo sugerido pela Sônia para quem quer se aprofundar no assunto:

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